sábado, 12 de fevereiro de 2011

Reality Show: mas o que é REALITY e o que é SHOW?

Nesta semana, acompanhei dois acontecimentos, um deles muito importante, e o outro nem tanto.
O acontecimento importante foi a retirada de um ditador do Egito, após 30 anos em que Mubarak ficou no poder. Foi o povo nas ruas, após dias de lutas, mortes e pressão, que conseguiu fazer justiça com as próprias mãos e os próprios gritos.
O acontecimento do tipo "celebridade" foi a exibição do primeiro episódio da atual temporada de Troca de Família. No episódio exibido Terça e Quinta, a escritora paulistana Clarah Averbuck, bipolar, doidinha e inconsequente, teve sua vida exposta: com o episódio gravado há um ano, vieram à tona seus problemas pessoais, a traição (ou não) de seu marido, e a criação de sua filha...
Acompanhei dois acontecimentos da realidade (o que quer que ela signifique) que foram vistos como show. As pessoas, em maior ou menor grau, ficam na expectativa de saber o que se passa, o que vai acontecer no futuro.

Ao saber do prounciamento de Hosni Mubarack na TV egípcia, o mundo parou para assistir, na espectativa que ele sairia. Ele não anunciou a saída, mas um dia depois fugiu na surdina, da mesma maneira que Silvio Santos estreia uma novela ou um novo-velho programa em seu canal.
No caso do Troca de Família e sua repercussão (de escala muito menor e sem causar impacto na história mundial), estava em xeque a exibição da vida alheia, a opinião que cada um tem sobre a vida de outrem (porque cuidar da própria vida é tão difícil, que vale mais se importar com os outros).

Não é de hoje que a vida virou um show. O espetáculo da vida não é mais uma orquestra sinfônica que embala o nascimento de bebês, o brotar das flores e o cair da água nas cachoeiras. Hoje, o espetáculo da vida é um grande circo, com malabaristas ricos, palhaços no congresso, mágicos e domadores exibindo seus abdômens e suas opiniões razas em vídeos no youtube e reality shows vazios (tudo isso com a trilha sonora impaciente e efêmera cantada por Ladys Gagas e Justins Biebers).

Há 66 anos atrás, quando meu avô saía do "Tiro de Guerra" (serviço militar que não existe nos dias de hoje), ele descobriu que a Segunda Guerra Mundial havia terminado. As pessoas ouviam no rádio, comemoravam nas ruas. Era bom saber que uma guerra tão ruim havia acabado. Mas naquela época a  Guerra era algo longínquo. Afetava a vida de muitos, mas para a maioria era uma espécie de mito, apenas comentado como se fosse uma estrela explodindo a anos luz de distância.

Hoje, as coisas são paradoxalmente mais rápidas e mais efêmeras. Informações são folhas que caem da árvore na calçada de casa: em poucas horas elas são varidas, levadas pela correnteza e esquecidas. Ao mesmo  tempo, a vida passou a ser um grande show: uma performance a ser acompanhada e vibrada... muito próxima de nós, exibida em alta definição, três dimensões, mas ao mesmo tempo longe, como se uma película transparente separasse cada um de nós de tudo que é mostrado.

Não é à toa que Reality Shows são tão aclamados pelo público. Quando Britto Júnior diz na "Fazenda" a frase "bem vindo ao show", ele não faz referência à realidade. Porque a edição diminui a realidade, enaltece o show.
As pessoas querem ver realidade, mas não a realidade enfadonha e triste do dia a dia, e sim a realidade transformada pela edição, atiçada pelas informações flutuantes, enaltecida pelos rumores de degraça alheia, de sexo entre desconhecidos, através de uma tela de Plasma ou LCD que aproxima a todos e ao mesmo tempo separa. Não ineteressa quem vai "tomar conta" do Egito agora: interessa apenas a vibração de uma expectativa, como a exibição dos momentos finais do filme de ação ou do último capítulo da novela.

A vida alheia é vista pela vitrine. Fica-se muito próximo, assiste-se a tudo e a todos. Mas o vidro é frio.

4 comentários:

! Marcelo Cândido ! disse...

Show heim esse texto
Tudo verdade mesmo, a realidade é outra bem diferente sem câmeras por perto
Só quem sente sabe falar...

Abraço
...

André San disse...

Parabéns, Daniel! Sensacional este texto. E o pôster de O Show de Truman resume bem tudo isso. O que importa é o espetáculo. A realidade deixa de ser real quando se torna show. Abraço!
André San - www.tele-visao.zip.net

FABIOTV disse...

Olá, tudo bem? Boa análise... Estou sem muito tempo para escrever textos mais profundos hehe.. Espero que as pirâmides continuem firmes e fortes no Egito... kkk.. Um dos meus planos é conhecer as pirâmides e as obras históricas do País. Abraços, Fabio www.fabiotv.zip.net

Lucas disse...

Muito boa a tua crítica. E esse filme eu assisti no curso de Psicologia... Foi muito bem escolhido pra ilustrar o texto!
Lucas - www.portalcascudeando.blog.com